quinta-feira, 3 de julho de 2014

"Mansfield Park" comemora bicentenário de lançamento

por Maria Clara


O terceiro livro de Jane Austen, "Mansfield Park", completa seu bicentenário em 2014. Publicado pela primeira vez em julho de 1814, o romance acompanha a protagonista Fanny Price, e faz uma bela crítica da sociedade britânica no século XIX.

Fanny vem de uma família pobre e, por isso, passa a morar na casa dos Bertram, seus tios que pertencem à nobreza. Desde criança, ela recebe a educação apropriada a uma moça da sociedade, mas também é lembrada de sua posição inferior. Não deve chamar atenção, não deve falar quando não é convidada, não deve nunca se esquecer que só tem uma vida confortável graças à imensa generosidade dos tios.

A pressão exercida sobre Fanny por suas primas Maria e Julia, pelas expectativas de Lorde Bertram e pelo caráter de sua outra tia, Mrs Norris, contrastam com a amizade de seu primo Edmund. Enquanto a família inteira discrimina a protagonista, o rapaz é o único a conversar com ela de verdade, a ouvir sua opinião nos mais variados assuntos e a educá-la, mais que simplesmente ensiná-la boas maneiras.

Frances O'Connor como Fanny Price na
adaptação de 1999

Em todos os personagens, percebe-se que são justamente as boas maneiras e as aparências que regem (ou toldam) as ações de cada um. Com a chegada dos vizinhos Henry e Mary Crawford, a natureza livre dos jovens do romance começa a se chocar com a rigidez dos costumes, criando situações constrangedoras e mexendo com a organização social da casa.

O casamento e, principalmente, suas consequências para as mulheres, são pontos principais da história. Se em "Orgulho e Preconceito" a heroína Elizabeth Bennet afirma que nunca se casaria a não ser por amor, em "Mansfield Park" os riscos de um casamento impensado são mostrados no enredo. A escolha entre o amor e um relacionamento por interesse, bem como a ideia de que não se pode perder a chance de uma boa união, é o principal tema depois da chegada dos irmãos Crawford.

O livro já foi adaptado para o cinema e para a televisão, além de ir para a ópera e o teatro. As atrizes Anna Massey, Frances O'Connor e Billie Piper já deram vida Fanny Price: a segunda, em 1999, foi a protagonista da adaptação "Palácio das Ilusões" dirigido por Patricia Rozema. O filme deu outro tom às atitudes de alguns personagens. A inconsequência de Tom Bertram, por exemplo, deixa de ser explicada pela forma como o primo mais velho de Fanny foi criado, e se torna justificada pela incompatibilidade de pensamento com o pai.

Fanny (Billie Piper) e Edmund (Blake Ritson) em cena do filme de 2007

"Mansfield Park", assim como as outras obras de Jane Austen, é um exemplo da qualidade da escritora, com personagens conflitantes entre si (e em conflito consigo mesmos, como é o caso de Edmund em alguns momentos da trama). Mesmo duzentos anos depois de seu lançamento, continua relevante para a literatura mundial e digno do título de clássico.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Fragmenta-me

por Maria Clara


Apesar de escrever, originalmente, uma trilogia, Tahereh Mafi adicionou dois livros ao enredo protagonizado por Juliette em "Estilhaça-me": o primeiro, "Destrua-me", trazia o ponto de vista do vilão Warner e oferecia bases para questionar a maldade do personagem. Em "Fragmenta-me", a autora dá voz a Adam, par romântico de Juliette.

O enredo do livro é simultâneo ao final de "Liberta-me" (segunda parte da trilogia), e tem início na última missão dos moradores do Ponto Ômega à superfície. Com o objetivo de enfrentar os soldados do Restabelecimento, Adam tenta superar os problemas de seu recente término com Juliette e da insatisfação com o amigo Kenji, e parte para o campo de batalha com os dois. O rapaz deixa seu irmão mais novo, James, na suposta segurança do abrigo subterrâneo.

É a preocupação com James que move Adam em "Fragmenta-me", mais que a vontade de vencer a ditadura ou a paixão por Juliette. Embora ele se angustie com os perigos que a garota sofre ao longo da saga, o medo de perder o irmão se torna o principal motivo para que Adam continue lutando. Sua meta, agora, é viver em paz com James - mas se Juliette fizer parte desse cenário, melhor.

É inevitável tecer comparações entre "Destrua-me" e "Fragmenta-me", já que os dois livros oferecem acesso aos pensamentos de personagens importantes para a história. O fato de Adam e Warner serem rivais e, ao mesmo tempo, estarem fortemente ligados um ao outro, colabora para que o leitor escolha "torcer" por um deles e aumenta a expectativa para a leitura da conclusão da trilogia, que termina com "Incendeia-me".

Assim como "Destrua-me", o livro foi lançado apenas em formato digital, e está disponível gratuitamente para diversos e-readers.

"Fragmenta-me" foi publicado digitalmente pela editora Novo Conceito. Para adicioná-lo à sua estante no Skoob, clique aqui.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Colin Fischer

por Maria Clara


Colin Fischer é um adolescente de 14 anos com síndrome de Asperger que acabou de entrar no Ensino Médio. Ele não gosta de ser tocado, anota seus pensamentos em um caderno especial, reconhece expressões faciais a partir de cartões de memorização e é bastante interessado em mistérios. O protagonista do livro de mesmo nome foi criado por Ashley Edward Miller e Zack Stentz, e alcança a empatia do leitor.

O livro se concentra no que Colin chama de "o mistério da arma na cantina". Um dia, durante a comemoração do aniversário de uma garota da escola, uma arma dispara e gera pânico entre os alunos. O principal suspeito é Wayne Connelly, que praticava bullying contra Colin durante toda a infância dos dois.

Graças a sua capacidade de observação e de raciocínio, Colin deduz rapidamente que Wayne não poderia ser o culpado pelo disparo: a arma estava suja com o glacê do bolo, e Wayne comia metodicamente, para não se sujar nem um pouco. Empenhado em resolver o mistério, o protagonista decide provar a inocência do colega de classe e descobrir o verdadeiro responsável pela arma.

"Colin Fischer" é narrado em terceira pessoa; cada capítulo, entretanto, se inicia com um texto escrito por Colin em seu caderno - trechos de pensamentos sobre o caso também são encontrados no decorrer da narrativa. A inteligência do garoto lembra um pouco o cientista Sheldon Cooper, da série de televisão "The Big Bang Theory", mas não é caricata nem parece uma tentativa de cópia. Colin é o tipo de personagem que cativa, e chega ao final da história deixando a vontade de que os autores escrevam uma continuação.

"Colin Fischer" foi publicado pela editora Novo Conceito. Para adicioná-lo à sua estante no Skoob, clique aqui.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Destrua-me

por Maria Clara


Em "Estilhaça-me", Tahereh Mafi apresenta Juliette, adolescente com um toque letal que passou anos trancada num hospício. Retirada do confinamento, a garota passa a conviver com Adam, rapaz por quem se apaixona, e Warner, que planeja transformá-la em uma arma.

Embora a história de Juliette seja contada na trilogia que segue com "Liberta-me" e com o recém-lançado "Incendeia-me", Mafi escreveu mais dois livros, mostrando o enredo sob outros pontos de vista. Um deles é "Destrua-me", narrado por Warner. O rapaz é filho de um dos principais chefes do Restabelecimento (força política que governa, literalmente, o mundo inteiro em regime ditatorial), e foi o responsável pela libertação de Juliette.

Ao longo do livro, mergulhamos nos pensamentos de Warner, em sua relação com o pai e na importância que ele dá à protagonista da história principal. Sua narrativa começa um pouco antes do fim de "Estilhaça-me" e vai até antes da metade de "Liberta-me", de modo que o leitor não vê o jovem interagir com Juliette. É possível, porém, acompanhar Warner enquanto ele reflete sobre seu papel na sociedade pós-apocalíptica em que vive. Em poucas páginas, a autora gera empatia com um personagem que, sob a ótica apresentada no primeiro livro, deveria ser um vilão sem sentimentos e fácil de se odiar.

Embora não seja indispensável para quem quer ler apenas a trilogia em si, o livro "1.5" da saga é bom para o leitor que deseja novas opiniões sobre o que acontece no enredo. Além disso, mantém a qualidade da autora, um dos maiores atrativos dos outros livros. O título está disponível apenas em formato digital, gratuitamente, no site da Amazon.

"Destrua-me" foi publicado digitalmente pela editora Novo Conceito. Para adicioná-lo à sua estante no Skoob, clique aqui.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Aconteceu em Paris

por Maria Clara


O primeiro romance de Molly Hopkins, "Aconteceu em Paris", apresenta o leitor à protagonista Evie Dexter em um momento de mudanças. Recentemente desempregada, a moça londrina precisa dar um rumo a sua vida profissional e arranja um emprego como guia turística na França.

Evie divide apartamento com a melhor amiga, Lulu, que interfere em sua vida mas sempre com boas intenções. Tem uma típica relação de amor e ódio com a irmã, Lexie, cuja vida de casada parece conturbada, mas feliz. É bastante dedicada a duas sobrinhas gêmeas que encarnam perfeitamente os estereótipos da "irmã boa" e "irmã má". É amiga de Vic, um grego viril e determinado, que vem de uma família bastante tradicional. Todos os personagens com quem a protagonista interage parecem saídos de uma comédia romântica, chegando a parecer clichês - não é incomum parar durante a leitura e pensar "será que isso não é coisa de algum filme?".

O enredo é centrado no relacionamento de Evie com Rob, motorista de ônibus de viagens com quem a moça começa a trabalhar. Rob é um verdadeiro galã de Hollywood: lindo, educado, ajuda a protagonista quando ela não tem dinheiro e está sempre disposto a mostrar o quanto a considera sensual. O romance dos dois começa como atração física, mas rapidamente se transforma numa história de amor cheia de altos e baixos, com obstáculos do cotidiano testando o amor do casal.

Mesmo dando a sensação de que a história já foi contada antes, "Aconteceu em Paris" pode ser um bom passatempo, apesar de parecer um pouco forçada. Alguns personagens são bastante estereotipados: Lulu e Lexie são extremamente dramáticas, com direito a falas repletas de "você não pooooooooode!", e "por favooooooooooooor", que levam a imaginá-las como rainhas do drama. Vic parece estar sempre gritando, parte do livro leva a crer que ele tem interesse por Evie e sua família se assemelha à do filme "Casamento Grego". Rob é uma espécie de príncipe encantado moderno que passa a comandar a vida da namorada e que, por ser muito bom de cama (é raro encontrar detalhes sobre a vida do rapaz), compensa qualquer erro que possa cometer.

Não é impossível que o leitor se canse antes de terminar o romance, dada a semelhança com roteiros de comédias românticas. Quem busca um livro um pouco maior para passar o tempo com uma história leve e despretensiosa pode se satisfazer com o romance.

"Aconteceu em Paris" foi publicado pela editora Novo Conceito. Para adicioná-lo à sua estante no Skoob, clique aqui.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O Menino no Espelho

por Maria Clara


O livro "O Menino no Espelho" foi lançado em 1982. Nele, o escritor Fernando Sabino conta histórias de sua infância, na época em que vivia em Belo Horizonte. Ainda nas primeiras páginas do prólogo o leitor já é conquistado pela facilidade com que o protagonista inicia suas memórias, falando do maior mistério que já havia vivido.

Ao longo do romance, Fernando conta, de forma leve e fluida, dez aventuras que teve quando criança - mas dá a sensação de que muitas outras aconteceram. São casos em que o menino demonstra esperteza, como a tentativa de salvar uma galinha (que ia morrer para virar o almoço), ou os esforços para sobreviver na selva durante um acampamento.

Outras histórias mostram a imaginação do protagonista, com situações que poderiam até ser consideradas mágicas. O capítulo "O canivetinho vermelho" fala da época em que Fernando era capaz de realizar milagres. Já em "O menino no espelho", capítulo que dá nome ao livro, o menino consegue trazer seu reflexo para o mundo real. Graças à vontade de ter um irmão gêmeo e ao desencantamento do nome Odnanref (que é o nome de Fernando ao contrário), o garoto se torna amigo de seu duplo, como ele mesmo fala.

O toque de fantasia que permeia o romance pode dar a ideia de um livro infantil, e não deixa de ser uma boa dica de leitura para crianças. Quem já cresceu, porém, não tem motivos para não gostar: a história fala a pessoas de todas as idades, transportando o leitor para um momento em que a vida era leve e descomplicada.

O romance de Fernando Sabino serviu de inspiração para um filme de mesmo nome, produzido pela Downtown Filmes e protagonizado por Lino Facioli. O ator já é conhecido pelo papel de Robin Arryn na série Game of Thrones, e dá vida a Fernando e Odnanref. Após ler o romance e compará-lo com o trailer do filme, percebe-se que a obra cinematográfica foi além do que é narrado no livro - o que não é necessariamente ruim, já que abre mais possibilidades no enredo. "O Menino no Espelho" estreia dia 19 de junho em Belo Horizonte, e ainda não há datas para o resto do Brasil.




"O Menino no Espelho" foi publicado pela editora Record. Para adicioná-lo à sua estante no Skoob, clique aqui.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Convergente

por Maria Clara


A trilogia iniciada com "Divergente", de Veronica Roth, chega ao fim com "Convergente", e transforma o enredo dos dois livros anteriores em uma distopia dentro de outra distopia. Depois da revelação feita em "Insurgente" e da explicação sobre a origem do sistema político adotado por Chicago, chega a hora de Tris e Tobias descobrirem o que acontece fora dos limites da cidade.

O último volume da série mostra que os moradores dos Estados Unidos, nesse futuro pós-apocalíptico, são classificados de acordo com o código genético. Essa separação é baseada num conceito de pureza que permitiria à sociedade viver pacificamente, e a divergência da protagonista deixa de ser motivo de preocupação. Rapidamente, porém, o leitor percebe que também existe uma forma de opressão racial tanto entre os moradores do Departamento (área para onde Tris, Tobias, Christina e outros amigos vão depois de sair da cidade) quanto do exterior sobre Chicago.

Além das revelações sobre o passado de sua cidade, Tris precisa lidar com problemas de seus relacionamentos pessoais. O namoro com Tobias é maduro, longe dos suspiros açucarados de outros casais da ficção, mas eles não são indiferentes um ao outro: os protagonistas encontram, na relação, a força para enfrentar as mudanças. Num momento de reflexão, Tris chega a reconhecer que não sabe como será sua vida com o namorado em tempos de paz, já que os dois foram unidos pelo espírito de revolução.

Outros personagens que mexem com a protagonista são Peter e Caleb. O primeiro segue fiel à sua personalidade. Peter deixa claro que não gosta de ninguém ali, mas parece ter uma motivação para colaborar com o grupo. Caleb luta para ser perdoado pela irmã, já que os dois são os únicos da família a continuar vivos. Mesmo assim, a lembrança de que o rapaz a entregou para ser torturada pela Erudição dificulta uma esperança de aproximação com Tris.

Com as informações dadas por Veronica Roth sobre o mundo exterior à cidade, seria possível criar uma nova história. Talvez por isso, surge um certo desapontamento quanto ao desfecho (calma, não haverá spoilers nessa resenha). Os problemas políticos do enredo recebem uma solução simples demais, quase apressada para terminar o livro. Quanto à vida dos personagens, em compensação, o final foi condizente com a personalidade de cada um. A razão que leva Peter a ajudar os protagonistas é revelada, e ajuda a gerar empatia pelo rapaz. Já o final de Tris pode, à primeira vista, desagradar alguns leitores. Numa segunda análise, porém, percebe-se que a decisão da garota fez jus à sua personalidade e sua divergência, amenizando (ainda que pouco) os pontos negativos da história.

"Convergente" foi publicado pela editora Rocco. Para adicioná-lo à sua estante no Skoob, clique aqui.
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